Martuxa de luz

Outro nome feminino que por estas terras se sufixa com ux: Martuxa.
Martuxa é usado para denominar à marta (Martes martes e Martes foina) ou como nome familiar para as mulheres chamadas Marta.

Da marta já falei.
Aqui breve história da Santa Marta.

Marta, a orige segundo estes etimologistas, poderia estar num proto-indo-europeu "*martu-", moça casadeira, donzela, recém-casada. Por algumha razom o seu nome verdadeiro era tabu, ou é, e entom buscou-se qualificá-la polo epíteto.

Outra mustélida famosa cheínha de nomes é Mustela nivalis,
a denuncielha,
donicela,
doninha,
norinha ...
Todos estes nomes fam referência a esse estado referenciando-o afrente o casamento, como se dixo da marta?

Outros nomes som variaçons dos anteriores ou formas femininas de aprécio:comadrinha,denosinha,
gonicela,
donosinha,
garridinha.
Dona das paredes é outro mais, polo seu costume de morar nos muros.
Norinha, mas de quem será nora?, com quem irá casar?, ou casou já?

Tanto nome dá muito para falar, e aqui dizem cousas mui muito interessantes.
Foi onde soubem do mito de Ovídio, que relaciona a pequena mustélida coa deusa Lucina, deusa dos partos. Com Juno.

Nalguns lugares para referirmos-nos a um animal sagrado ou maligno; ou a um Poder, um deus ou um dianho, nom o chamamos polo seu nome verdadeiro pois seria pecaminoso ou tragheria o mal.
Assi ao urso chamam-no polo que fai "o-comedor-de-mel" ou
pola cor "o-pardo". Mesmo aqui na Galiza algumhas gentes, nalgumhas zonas, para falarmos do lobo dizemos: “o aquel”, “o outro”, “o bicho”, “ o da boca rachada”, “o filho do demo”, “o compadre” ou “o tío Pedro” ...


DELUZINHA: De-luz e mais o carinho galego no sufixo.A deusa Lucina era a que adjectivava a Juno ou a Diana, Juno Lucina ou Diana Lucina.
(Perdoem-me ó Grandes Deusas, por pronunciar o seu nome).

Este aspecto do parto pode estar tamém no nome de comadrinha, a comadre ajuda a dar a luz, no espanhol conserva-se o nome de comadrona para as enfermeiras parteiras.
DENUNCIELHA: De-núncia e mais o sufixo -elha, com possibilidade de provir do diminutivo latino -ecula.
Aqui hai moito que remexer. Pois o de núncia pode ter o significado de mensageira, ou tamém relacionada co casamento, as núpcias.

DONICELA: Dona da cela?, tal vez de dionisiela, umha Dio-nísia, uma deusa nascida ou do nascimento?

Mas agora na mitologia popular, a deluzinha tem muito mal.
A deluzinha nom pesa mais de 140 gr., e assusta à gente.
Dizem que se che trava o seu veneno é mais forte que o de qualquer víbora.
Bota-se a ti se vas vestido de cor encarnada.Que é tam voraz que te comeria.
Que inclusive tem um aguilhão.
Quando se deixa ver, tu olhas um raio, um lóstrego a correr e vibrar, todo vida, puro nervo.
Que mata as côbregas.
Nom se pode falar mal dela ou pejorá-la, enfurecida botaria-se a ti:
Se te morde a donicela, busca vinho e busca vela que manham darám-che terra

Donicela, bonitinha, garridinha e fermosinha; donicela, torresmeira, borralhenta, caldeirona; mal o raio que te coma!

Voltando à marta. Marta é nome para a coruja nalguns lugares da Galiza, e tamém martaranho no sul do Minho.
Isto fai-me pensar que "marta" na sua orige era um epíteto, a coruja seria a "ave marta" ou o "passaro martaranho", ou sabe deus o quê? ...

As dúvidas neste terreo lamacento de rastos perdidos.
Marte, deusas romanas, as Matres célticas .... a marta e a deluzinha, que rebúmbio!

Catuxa


Catuxa é para Catarina.
Dizem que a Lua se chama Catarina.
Do grego Katharos: pura, imaculada, limpa.
Catarina > Cata > Catuxa.
A Lua limpa.


Além da Lua, de arredor da bruxa está o gato.
O gato tem um nome carinhoso por aqui:
Muruxo, ou moruxo, moruxinho.
Mure em latim é rato, isto viria sendo "ratuxinho".
Que cousas tem o falar!
O galego trasmontano conserva a palavra muro para o rato.
E por aqui adiante murador qualifica os gatos bons caçadores.

E temos a plantinha moruxa, tamém denominada como orelhas de rato, Stellaria media que medra na horta, e que se considera má-erva, ainda que os livros falam de que se pode comer.




E ainda mais: antarujá é outro nome para a bruxa.
Antaruja umha visom fantástica na noite, umha astadea ou estadea.
Antaruja, fai pensar em antara; ao melhor é ir muito longe e relacionar as nossas antarujas com a palavra sânscrita antara (interior ou entre), mas já nom é tam longe passar a raia seca e dar com "antera", trasmontanismo dos melhores, que vem sendo: INTERIOR !!
Neste dicionário sânscrito inglês pode-se achar antara, e cavilar um pouco com os múltiplos e irmanados significados.
Entom teriamos que as antarujas, som interioruxos, introspecçonzinhas, algo pequenuxo que está entre...
E as antarujãs, as mulheres que fazem isto.

Bem podia ser dumha outra orige, derivar de anta, das pedras, das lages das mámoas ou dólmens, dos marcos chantados.

E coa meiga está a coruja, mas esta avezinha irá noutra postagem.
Com Minerva, a deusa da sabedoria, da medicina, tamém anda a coruja.
Ou seria o moucho?


Cabuja





E se da vaca temos a vacuja.
Da cabra: a cabuja.
Nom sei por quê perdeu o erre e nom deu cabRuja.
A cabra tem sempre diminutivos de muito uso: cabrita, cabirta, godalha (derivada de bode?), e ainda cabritinha.
Famoso hit do Quim Barreiros: A cabritinha.
A chiva.
A cabujinha, que linda!
Zeus mesmo mamou dela, de Amalteia, de Aix a cabra mai.

E isto vem a conto, pois se de vaca temos cuxa.
De cabra temos bruxa!

E por eufemismo à cabuxa tirámos-lhe o erre?

Cuja


O cujinho!
O cujinho de ouro!
Prò galeguinho a vaca é ouro e o porco tesouro.

Passam os tempos e seguimos idólatras do vacucho de ouro.
Eu é que vos som um pouco do monte, e ver o jato mantido este, metido em formol ... Hai que ser bem animal para fazer isso!
... nom sei quê me dá ... e ainda mais perceberem nisto beleza.
Vaia estamos mui longe, nom deveria julgar.
Mas, pobre vacujo!!

Cujo!
Eu creio que poderia ser daí de onde venha o nome.
De "vacucha" ou "vacuja" apelativos carinhosos/desprezativos, nasce cucha e cuja.

Agora, o de pucha para as bezerras nom sei de onde virá. De "vapucha"?
De outro nome bovino que leve pê?
E é que a relaçom com os bovinos é tam íntima, que os enchemos de apreciativos.
E já nem ponho os nomes próprios dalgumhas delas, permitide-me só Marela.
Creio que Marela tem para muitos de nós galegos rurais um sabor maternal íntimo.

Quando nom se sabe bem se umha vacuja anda ao boi, está quente, está desonesta (desta forma nom gosto), ou está no estro, o cuidador, o dono aboia-a.
Aboiar umha vaca é leva-la ao boi. Ou é fazer-lhe os jeitos do macho, ceivando outra, arrimando-lha e vendo se o seu comportamento é de cio, a vaca quente deixa-se acavalar, cavaletear, montar... Outra forma de aboiar é indo por trás e esfregando-lhe a croca e o nascimento do rabo, ou sem esfregar-lhe nada simplesmente emitindo um som semelhante a este: "cuixx, cuixx cuixx ... cuixinha", o que se chama acuixar; ou "puixx, puixx, puixx .... puixinha". Se está de saçom pandeará-se, isto é arqueia o lombo e levanta o cu, o quadril, para facilitar o salto.
Cuix cuix cuix ... Parece-me que o importante do som é o xis xordo em agudo prolongado do final do fonema.
"Estivem-na acuixando e pandeava-se".

Filhotes da vaca e do boi:
Bezerra, cucha, cuja/cuxa, jata, terneira, tenreira, vitela.

Vou botar a língua a pacer, e como assi nas letras os elos que unem as palavras som tantos e por caminhos tam diversos.
Ai vou:
Ai minha vacuja,
olha o teu vitelo,
metido em formaldeído,
morto e adorado,
o teu vacu
jato.

JATO!!
Se da lebre sai o lebrato.
Da loba, lobato.
Se da javali, javato.
E inclusive, como se conta na Vella da Manta, gato poderia vir dum diminutivo de cam.
De vacuja: vacujato, e daí JATO.

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Orvalho


Quando orvalha ouve-se:
Chove de papujeira!
Está o dia de papujeira.
É umha empapujada que parece que nom molha.
Leva todo o dia empapuçado.
Saim de passeio parecia que nom chovia e empapucei-me todo.

Empapar, desprezativamente ou carinhosamente, di-se empap-uj-ar ou empap-uz-ar.
Nos lugares que ouvim papujar, empapujar ou papuçar empapuçar para orvalhar, tamém tenhem o significado de engolir, papar, trasgolar-se.

Este sufixos e a choiva miúda juntam-se outras vezes:
Meruja, em Tras os Montes, o nevoeiro que molha; e mais: mera dá a idéia de miasma, de eflúvio.
E caruja, carujeira segundo o Priberam é orvalho; nas bandas do Douro é um nevoeiro que se forma no rio e sobe pelas encostas.

Papujeira ou papuceira, papuja, papuça, papa, sopa.
Orvalheira, orvalho.
Nevoeiro / nivueiro, névoa.
Mera, meruja.
Caruja, carujeira.

Isto fai-me pensar numhas hipotéticas palavras do passado Orvo e Cara, com sufixos de amor-ódio.

E seguimos metendo sufixos e onomatopeias:
Choviscar, chuvasco, chovisca, farfanhar,babujar, barbanhar, barruçar, chuvinar, chuvinhar, orvalhiscar, pinguejar ....


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Papa gaio

Cantiga medieval de Dom Dinis

Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant' eu vi, mui coitada;
e diss' : "– Hoimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi_o meu há errado".

Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "– Amigo loução,
que faria por amores,
pois m' errastes tam em vão?"
E caeu antr' ũas flores.

Ũa gram peça do dia
jouv' ali, que nom falava,
e a vezes acordava,
a vezes esmorecia;
e diss' : "– Ai Santa Maria,
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"– Bem, por quant' eu sei, senhora."

"– Se me queres dar guarida",
–diss' a pastor– "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m' é esta vida".
Diss' el: "– Senhor [mui] comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida
erged' olho e vê-lo-edes."

Outra ave misteriosa, o papagai europeu dos séculos XIII e XIV.
Umha ave faladora; bom, sempre poderia ser qualquer ave canora que metaforicamente comunicasse.
E naquela altura que o papagai fosse o gaio ...?
As córvidas chegam a imitar sons e palavras.
Um nome na Galiza para o Oriolus oriolus é o de papagaio.

Já tínhamos o verde gaio, mas o verde gaio agora assi visto semelha muito ser o papagaio americano, com tanta variabilidade, numhas cântigas tem as penas verdes e amarelas, noutras negras e amarelas, noutras azuis e amarelas: multicor!

Tam'ém no árabe babaga vêem alguns a raiz da palavra papagaio.

Por dar-lhe voltas nom há ser:
Papa-gaio.
Papo: penacho que coroa alguns fruitos ou sementes.
Papo, penacho?
E o gaio tem penas no coruto da cabeça (penas erécteis no píleo) que arrebita quando se altera, um penacho.
Há mais aves que fazem isto, entre elas também o papagaio americano:
A poupa ou bubela (Upupa epops), a laverca (Alauda arvensis), as cotovias (Lullula arborea e Galerida cristata), os petos ou pica-paus (Dendrocopos spp.), algumhas escrevedeiras (Emberiza spp.).


Papo, de gola ou papo de penacho?
As papujas (Sylvia spp.), tamém chamadas de papudas ou toutinegras para falarem disto e aumentarem a confusom:













Papuja das amoras ou toutinegra de barrete preto (Sylvia atricapilla)
















Papuja montês ou carriça do mato (Sylvia undata)





















Papuja comum ou papa-amoras (Sylvia communis).






E para acabar co papo e o gaio, esta avezinha que se chama paxarim gaio (Parus cristatus), chapim de poupa ou ferreirinho cristado:

Homens?

- Não há homens que se os houver ...
(Tirado 
daqui. Um trabalho de Pilar Garcia Negro).

Este vaise i aquel vaise,
e todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar...



Este vai-se e aquele vai-se,
e todos todos se vão
Galiza, sem homens ficas
que te possam trabalhar....



Duas almas de grande sensibilidade foram quem, no século XIX e no começo do XX, de transmitir isto, que ainda hoje começo a perceber....



Figueira mágica


A vassoira serve-lhe à meiga para "voar"; e na morte para passar melhor a outro lugar.
Muito do seu conhecimento vem pela utilização de plantas psicotropas ou enteógenas entre elas a Datura stramonium.
A planta Datura tem fortes efeitos gastro-intestinais inclusive fumada.
Mas aplicada na mucosa genital feminina não.
Era por isso que tinham o sexo rapado para aplicarem-se unturas que davam visões e conhecimentos.
Conta a minha avó que quando os guardas municipais bateram na meiga e ela cai ao chão com as saias levantadas, os seus olhos de menina fotografam esta imagem, "a meiga tinha a cona pelada".
Daquela altura era infrequente as mulheres usarem cuecas e menos ainda era moda rasurarem-se.
Foi mais tarde quando soube que isto era assim em toda a "bruxaria" europeia.
Também soube que no momento da morte em algumas culturas as gentes "drogam-se", ou melhor dito saem deste mundo por outra porta.

Eis a vassoira para o que servia, além de ser usada para varrer o mal como fazem alguns mencinheiros.

É mui interessante achar estas partes da cultura que foram perseguidas, nos seus rastos nas palavras.
A Datura foi até há bem pouco usada e censurada, pois entre muitos nomes que tem estão o de "erva dos mágicos" e o de "figueira do inferno".
São Martinho da Panónia deixou muita sombra.

Gençá


Gençá, Gençana, Jançá.
Gentiana lutea.

Tem muitos usos, para baixar a febre, para cicatrizar feridas, e sandar maçaduras, para a pulmonia, contra a dor de moas.

Para rebaixar o sangue.
O sangue pode-se pôr junto, gordo, espesso.
Pode haver um excesso de força dentro.
É necessário diminuir o fervom. Compre, é preciso, emagrecer.

Esse excesso de força, sobretudo quando a Primavera chega de socate, e agroma tudo dum dia para outro, pode fazer mal.
Deve-se coutar dalgum jeito.
Os patrões tomam jançá, dizem que assi põem tudo no seu lugar.
Algum velho chegou-me a dizer que coa jançá nom se lhe empinava, e era isso o que queria, que tanto envergalhamento à gente do seu tempo nom lhe era bom.
Nos altos onde se dá a jançã, a Prima-vera tem que vir dum dia para outro, pois pola Santa Cruz de Maio ainda neva, e tem que correr, em quatro meses deve laborar o que noutros lado trabalha em seis ou mais.
E tenho vivido, dias concretos, nos que vem umha baixa presom, e gentes e animais a sangrarem polos focinhos, como um andaço.
E os animais, as vacas dizem que é bom sangrá-las. Se nom se fai, pode ser que nom emprenhem, que se passem de força e comecem a desfazer os valos e a berrar como bois, que se ponham machorras.
A jançá dá-se-lhes às ruminantes seca e machucada para remoerem se por algumha causa estám empachadas, e para emprenharem.

Aqui há um vestígio dum entendimento total da Natureza.
Nom se parte em cachos, como até agora talha, ou como segue a talhar a Ciência com letras maiúsculas.
E a mesma Natureza dá o remédio, deixa medrar a planta curativa, na zona que se precisa.
E nessa zona determinada a gençá é planta de muito poder e valor.

Nacidas

No porco som as nacidas.
No cavalo o freio do beiço.
No cam o verme da língua.
E tamém se fizo nas persoas.

Os alveitares e mencinheiros tiravam um anaco da mucosa da boca.
Sabe-se que som pontos importantes na medicina chinesa.
Estas operações influem na imunidade aumentando-a, ou isso dim.

Ao porco abre-se a boca e cumhas tenaces arrinca-se-lhe por dentro da façula um belisco de carne dum lado e do outro. E no cavalo corta-se-lhe o freio do beiço superior.
No cam, com umha navalhinha bem afiada vai-se-lhe extirpando o ligamento sublingual, isto sobretudo para a doença chamada esgana, MONQUILHO ou moquilho.

Deixa-se que sangrem.

Mais significados das nascidas aqui.

Lobado



Um lobado é um inchaço, às vezes um inchaço qualquer.
Especificamente som os inchaços infecciosos, subcutâneos ou musculares, geralmente nos animais, ainda que o tenho ouvido para a gente.

A orige está em que se lhe dá a culpa ao lobo, o lobo trava e onde o fai, a ferida enceta-se logo. Ainda que nom houver desgarro, só a picada dos canteiros do lobo é suficiente para gerar umha infecçom.
Os dentes cairos do lobo estám feitos para isso. O caínho leva umha pequena fenda e aresta que o percorre de riba a baixo, onde a semente infecciosa aninha, e ao ser chantado deixa o patógeno.

O lobado passou a nomear o carbunco, a clostridiose, e o antrax, que nalgumhas formas provoca inchaços rápidos, gangrenas enfisematosas, que aginha matam.

Chavea


Chavea ou chaveira, Helleborus foetidus.
O Senhor Manuel, colhe uma folhina da chavea envolve-a nũa verça e dá-lha a comer ao jato esforricado.
A diarreia cura, tem que lhe dar pouca, pois a planta é potente, venenosa.

Vale para muito. Coa auga de cozê-la esfregam-se as espulhas e lavam-se as feridas.
Os fumaços dela tornam os ratos e o mal.

Dizem que o nome de chaveira vem por ser umha planta "chave", abre o ano.
É possível vê-la medrar debaixo da neve, quando o frio recoze e queima outras plantas, ela co seu verde vai assomando, já polo Natal.

Tem muitos outros nomes:
Erva forte.
Erva dos besteiros, besteira: pois foi empregada para envenenar as frechas, as bestas, as setas.
Também: erva do lobo, poderia ser referindo-se ao lobado.
Um uso complicado era para o carbunco, metia-se um anaco de raiz na zona do lobado perfurando com umha agulha ou sovela grande o pelejo.
E erva dos bois, erva do gado, erva papeira, tudo isto pode indicar para o que foi usada.
Às vacas que incham, ou comêrom de mais, esfrega-se-lhes a boca com ela, purgando-as assi.
O de papeira pode ser que tenha que ver co lobado, ainda que tamém se pode refrir à sua açom purgante potente. Ovelhas e cabras padecem "papeira" quando tenhem muitas lombrigas, muitas parasitas internas, talvez a erva papeira além de purgar, mate ou paralise os vermes e assi cure.
Erva do porco é outro nome mais, e sabe-se que nom lhes fai dano se a comem.

Algumhas destas utilizaciois vam contra a filosofia da medicina científica atual.
E estám naquilo de que o semelhante sanda o semelhante: Umha planta purgante que à vez é usada para curar umha diarreia.





Súmio

Nas zonas calias, calcárias, do oriente, a água pode escorrer por ũa fenda da terra, desaparecendo.
Essas gretas som chamadas "súmios".

O viajante fala de "sumir" aqui.

Molime

Molime.
Valume.
Estrume.
Louça.
Batume.

E tanta diversidade?

Tea de juízo*

Na rádio:
Bla, bla, bla ... ponhem em "tea de juízo" a veracidade ....bla, bla bla.

Outra mais:
Só os galegos põem em "tea de juízo".

Tela: palavra latina para os lugares fechados onde se discutia.

Hai já na rede uns cem documentos coa "tea de xuizo"!
quatro com "tea de xuicio".
E um com "tea de juízo".

Docicalha

Na Torre tenhem um rancho roncolho.
É um problema.
Pensam em matá-lo agora, ainda é um quininho de quatro meses, é que logo, com mais tempo, a carne colhe sabor, um sabor moi moi bravio, vaia, algo mais que bravio ...
Mas a carne agora é ũa docicalha, nom tem força nengũa, como papas desfai-se na boca.
A carne para ser boa necessita estar refeita, dim os da casa.

O porco caparom-no, peró só tinha um colhom fora.
O trunfo dentro fai que a carne tenha um sabor pouco agradável, pois os hormônios e os feromônios seguem produzindo-se.
Este roncolho capado pode castiçar as porcas, envergalha-se, saca o piçalho como um berbequim, e monta, ainda que nom as emprenha.
O castiço, o verrom, verrasco, um bom marom tem que ter os colhõs bem postos.
Nalguns lugares ao porco emprenhador chamam-lhe touro. E assi podes ouvir:
-Hai que levar a porca ao touro, que já está em saçom.

Molida

Molida: Sinovite, bursite na articulação femoro-tibial, mais raramente na escápulo-umeral nos bovídeos.
Polo geral nom se lhe dá este nome se há infeçom.
Um derrame na junta, no ghonzo da bragha.

Um tratamento que aprendim dum home de Sisto para tratar as molidas:
Pica-se umha cebola ou duas, raladinhas e com moito sal fai-se umha salmoeira, deixa-se serenar, todo mesturado, dous dias.
Aplica-se remolhando no xarope um carolo de milho, esfrega-se bem a joga danada duas ou três vezes no dia.

Tanto o sal como a cebola tenhem moito poder para reduzir os edemas, e aqui interessa que baixe a quantidade de sinóvia do derrame aginha.

Molida, mulida.

Gaiola

Gaiola é o que é.
Gaiola co seu lado negativo.

E mas hai também umha gaiola imaterial, acolhedora, umha cavidade aberta, refúgio, caverninha.
Nalgum lugar se ouve:
- Dá-che gaiola, que bem te vim. Dá-che boa gaiola.
- Dá-che-ma boa si, estivemos falando bem.

Dar gaiola, dar conversa amigável, dar um oco onde comunicar as idéias, ouvir, escuitar, compartir, parolar, falar, dar-se bem, ter afinidade, harmonizar-se, agarimar-se, abrir-se, entender ...
Nada de prender com palavras, enredar com circunlóquios, nom, isso nom é dar gaiola. Sem os aspectos que pode ter engaiolar, de seduçom, de dominaçom.

E gaiola dizem que vem de caveola.
E gaio sei que é alegre.
Linda coincidência.

Complicada sobrevivência deste localismo arrodeado de falas engaiolantes e gaiolas para aves.


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Charla

Em dous dicionários portugueses:
Charla
nome feminino
conversa ou palavreado à-toa.
(Do cast. charla, "id.")


Charla:
da raiz onom. char, falar.
s. f. Conversa à toa palavreado oco
.

Num dicionário espanhol:
Charla:
(de charlar)
1. s. f. Disertación oral ante un público, sin solemnidad ni excesivas preocupaciones formales.
2. coloq. acción de charlar.
Charlar:
(del italiano ciarlare)
intr. Conversar, platicar.

Num vocabolario della lingua italiana:
Ciarla s.f. Notizia non vera, pettegolezzo. Ciancia.
Pettegolezzo: Discorso malizioso e indiscreto su qualcuno o sulla sua condotta.
Ciancia s. f. Discorso futile o sconclusionato, o non rispondente a verità.
Noutro:
Ciarlare v.intr.
Parlare tanto, sensa riflettere e di cose insignificanti.


Creio que chamar "charlas" a discursos, informaçons, conferências, palestras, sermons, falamentos, disertaçons, comunicaçons, colóquios ... tem algo de erro.
E será que os espanhóis nos venhem com charlas serias, charlas divulgativas. Expresons correctas na sua língua.

E na nossa?
Hai muita "charla informativa" que pretende ser rigorosa.



Gaio


Umha pega-rebordá
pujo um ovo na quintá
pujo um e rebordou
pujo dous e rebordou
pujo três e rebordou
pujo quatro e rebordou
....
pujo ... e estoupou!!

Recita-se isto tudo sem inspirar ar até o número mais alto que se puder.

O seu nome mais conhecido é gaio.
Outros nomes:
Pega gaia, transmite a ideia de pega alegre.
Pega rebuldá também, fazendo referência a que é rebuldeira, jogueteira, brincalhona, ou umha variaçom de rebordã?
Pega rebordá, poderia ser umha variaçom da anterior?
Pega marça ou Pega marxa, pega com marcas.
Uns dim que já do latim Caius ou gaius.
Outros que passou polo provençal: latim gaudium> provençal gai > galego-português gaio alegre.
Também no provençal encontramos a palavra gaia/gaya, de orige no hipotético vocábulo franco gahi, antigo alto-alemám gaahi, “impetuoso; ousado; rápido; apressado; vivaz".
Foi lá no provençal que lhe chamárom à arte poética «gaia ciência», ciência de viver alegremente.

E na copla:
As penas do verde gaio,
som verdes e amarelas,
não me empurres que não caio,
que eu som rijo das canelas.
Qual paxaro será o verde gaio?
O verderolo ou verdilhão?

A pega marzá é sementadora de esperança.
Agora que vai vindo a outonada dos carvalhos, ela recolhe as landras.
Agacha-as aqui e ali, para reservar algo de comida para o inverno.
Por vezes esquece o lugar onde as guardou, dim que si que esquece e até poderia ser que nom.
E ali pode nascer um novo carvalhete, sementado adrede. Ou nom?

Cativo

- Andam nas cereijas!
- Mecagho nos cativos!!

Quando livres, eram-che moito.
Agrupavam-se em bandos e percorriam a contorna, roubando, pilhando, argalhando contra a adultice, e contra a velhice... nem che conto os males que causavam.
Iam teixar nos chícharos, rilhavam os conchos verdes.
Metiam-se a fazer camas no centeio ou no trigo, deitando-o.
Subiam às maceiras. A sua fame de liberdade e doutras cousas permitia-lhes comer a froita verde agre.
No milho apanhavam as cabuchas, as espigas leitosas e se nom as comiam cruas, sempre havia algum arteiro que fazia um lume e assava.
Pilhavam troitas a mão, fazendo-lhes carinhos na bariga.
Doutras vezes acabavam na ribeira, nom deixavam caranguejo, mincha ou mexilom, arrasavam com tudo, comiam os camarons vivos.
A sua estratégia era a de terra queimada.
O seu conhecimento do meio, permitia-lhes um aproveitamento total, além de terem umha hierarquia marcada e até certo ponto estável, onde o mais febre tinha o seu lugar, como vigia, ajudante ....
Sabiam dos lugares ocultos onde o merlo aninhava.
Castinheiros e carvalhos ocos, canhotas onde se meterem se chovia.
Juntavam-se em penedos de poder, centros de energia e carga telúrica que os fortalecia.
Atreviam-se a subir pinheiros altíssimos para roubar-lhe os ovos ao corvo. Os companheiros abaixo barulhando para espantarem as aves irritadas. E o aghatunhador com um pano prendido polas quatro esquinas na boca onde levava o delicado tesouro, descida heróico, depois de sentir a vertige do coruto enramado abalando.
Conheciam onde se davam os careixons, os morotes, os morangos silvestres mais ricos, enfiavam-nos numha palha.
Subiam ao alto da serra, sentiam como os arandos lhes davam a essência do urso.
As amoras!
E as castanhas!

Chegou um dia no que a gente se fartou.
Entom prendérom-nos.
Fixérom-nos cativos.
Eles ainda assi defendiam-se desta condiçom.
- Cativo! Passa prà casa.
- Cativo é o demo! - Retrucavam, guardando dentro a pérola da liberdade, o orgulho céltico de esperança, sempre se podia fugir, umha escapadinha para o monte ...
Ao nacerem, já os metiam em caixons, berços, cadaleitos, onde nom se podiam mexer.
Enfaixavam-nos bem apertados, e marchavam para os labores.
Nalguns lugares cavavam buracos na terra e ali os deixavam enterrados, apenas a cabecinha de fora.
Havia mochilas-cárcere bem cinchadas, para carregá-los ao lombo.
Estes cativos presos nom tinham maneira de se defender, e se o porco volvia antes para a casa e entrava na lareira, o ulido a leite azedo, chamava-o, podia ir ali, e comer-lhe as orelhas ou as suas partes, um dedinho. Algumha rata tem rilhado orelhas e narizes.

Nom che cambiou muito o conto, dantes a agora.
Segue havendo cativos.
Um cárcere tam pavloviano, que depois quando podendo ser livres, buscamos voltar a ele.
Cativos de por vida.

E assi feiamente, cativo é sinônimo de criança, de neno.


Teixar: atuar rápidamente, comer ávidamente, fazer o que fai o porco-teixo, o teixugo, comer nos chícharos, nas ervilhas, nos pericos verdes, a casca da bainha, do concho doce e saboroso, só hai que pelar a parte coriácea interior.

Esgrévia

Vou aqui desabafar.
Eu nom trabalho essencialmente com palavras, as palavras som umha ferramenta mais.
O meu trabalho é coas mãos.
Desculpem as minhas erradas palavras.

Os escritores na Galiza quando tenhem sucesso convertem-se em "esgrévios".
Entronizam-nos nessa altura de palavrada, palavrinha ou palabreja gallega os seus colegas.
Desculpem os verdadeiros escritores egrégios, os que sabem da arte das letras.

Tinha lido algo mas nunca ouvira em pessoa a palavra, e um dia:
"Sangue esgrévio!" berravam as mulheres, eu a correr, urtigas machucadas com açúcar para parar a hemorragia, nom havia medicamento que coutasse o vermelho que ia ensanguhentando todo, as paredes, o chão, os rostos, as mãos, a roupa ... a vida fugia por aquel sangue esgrévio derramado a cachom, que nos enervava, e entolecia, pois nom o tínhamos pedido.
"Sam António! Sam Antoninho!!"
Eu quedei-me ....
Olhei para tanto sangue ... esgrévio.

Ali nom vim por nenhures nem a Rosalia, nem a Curros, nem a Pondal.
Impossível, nom quadra um aspecto com outro, unicamente: Sangue puro = puro escritor".
Escritor de pura raça é o "escritor esgrévio", nonsi?
Aí quedou a cousa.
Outro dia, estava num bar, e queria eu fiar umha conversa com umha mulher linda.
Quase côvado com côvado no balcom.
Ela por fazer algo, lia um jornal desportivo, nervoso eu, nom percebia a sua linguage corporal.
Diante da beleza, estava cego de tanta luz, e querendo-a conhecer, malhava na cabeça do quê lhe falar, jornal desportivo: desporto!!
- Qual é o deporte que mais gostas?
Vaia trapalhada de pergunta, enquanto a fazia os olhos dela iam-me fulminando dos pés à cabeça. Asseguro que nasceu de mim a questom sem malícia.
Marchou com passo firme.
Eu mentres ia perguntando nom gesticulava como um esquiador.
Desfazia-me em explicaçons que nom levavam a nenhures ...
-Desculpa.
- ...
-Nom era com segundas intenciois ...
Ela já saia pola porta.
O camareiro sorria. Chiscou-me o olho:
- É-che esgrévia.
- Será.
Metido na minha concha de fracaso, remoim. No que se pareceria aquela mulher guapa aos escritores?, no seu alto pedestal? Na sua desconfiança? Na sua dor?

Entom a image de esgrévio forma-se:
Tu cavas fundo, vás até a rocha, a rocha esgrévia, a que nom lambeu a auga nem peiteou o vento, o núcleo rude; a primeira matéria, dura.
Sangue esgrévio é nessa conceiçom, o sangue central, primordial, matriz e baril, pois, queiras que nom, essa ideia do Servet do sistema circulatório ainda nom chegou dentro.

Nom gosto da palavra malícia para referir-me à intençom picante.
Escrevo-a aqui para assi falar dela e deste aspecto.
Malícia pre-supom, (supom direitamente?) que é má a sexualidade.


Papa-moscas


Nunca a aguardo.
Nom a espero, estou desatento e um dia chega esta ave.
Aparece e anuncia que já está aqui a invernia.
Que o verão vai acabando.
E já chegou!
O seu nome indica o que fai, papar moscas. Pousa-se num lugar algo aberto numha ponla, e com voo certeiro atrapa os insectos, chega quase a peneirar-se.

Aqui um vídeo dele.

O seu nome é usado para qualificar a alguém paspám, pampo, distraído.
"Quê fas aí papando moscas? Move-te!!

A semelhança:
Por aqui, desde finais de Agosto e todo Setembro, dependendo do clima desse ano, passam caminho da África os Ficedula hypoleuca. Para algumhas aves é o seu primeiro voo, desde tam longe como a Escandinávia, e muitas nunca tinham visto umha pessoa, nom fogem, nom nos tenhem medo, daí que pareçam distraídas.

O indivíduo que está a " papar moscas" geralmente está ensimesmado, olhando sem ver, e aparentemente alheo, nom age a estímulos próximos.
Assi se comporta o papa-moscas, mas a avezinha está centrada, nom nos biosbardos, ou si, vai tu saber!
Como um dos melhores caçadores à espreita, ajeja, está atento mas calmado, eis a clave. E plam!, dum chimpo chouta do pousadoiro e tem a mosca no bico, quando parecia que nem mirava para ela.
Geralmente o humano papa-moscas nom chega a tal arte, assi e todo, por vezes, algum pensamento mosca é pilhado, e poderia ser ...

Esta capacidade de papar moscas vê-se nos cativos, nos nenos, nos pequenos desenvolvida. Eles mesmos dumha maneira natural, ficam absortos, sem ...
Autênticos mestres de meditaçom!
Como som cativos, som reconduzidos, rapidamente censurados, acorremos a espertá-los, a traê-los de volta de essa aparente ausência. Nom sabemos porque o fazemos, mas todo o mundo o fai, os nossos pais connosco, os nossos avôs ...

Ò papa-moscas!, caiu-che o sam-benito!
Meu paxarinho zen.
(Cair o sam-benito: cair a alcunha má, a má sona, sem ter a responsabilidade).

Presoiro

O fio da palavra:
Presoiro, é algo que tem a ver com preso, prendido.
As plantas chamadas presoiro prendem os seus raminhos e sementes na roupa, no pêlo dos animais.
O presoiro é conhecido por muitos nomes, podem-se ver alguns aqui.
Erva-coalheira, calha-leite, coalha-leite.
Galion já lhe chamavam no grego antigo, de gala, leite.
Vemos duas espécies frequentemente: a G. verum que é a que melhor coalha, e a G.aparine que tamém prende o leite, mas tem menos força.
O presoiro como sinônimo de coalho: presoiro é o que se lhe bota ao leite para que prenda.
Outra maneira de prender o leite é utilizando o estômago dos bezerros, anhos ou cabritos, nũa bexiga feita fole deste órgão, bate-se o leite e assi calha. Ou metendo a víscera cortada em anacos nũa salmoira, logo dum tempo com um chisco do líquido do curtido já prende o leite.
Agora nas indústrias usam coagulantes químicos de síntese.
O presoiro passou a nomar o estômago verdadeiro dos ruminantes, tamém chamado calheiro ou coalheiro, cientificamente abomaso.
Dai o nome do prato culinário dos calhos.

Presoiro: planta do gênero Galium, substância para coalhar o leite, abomaso.

Agora introduziu-se ũa nova palavra para o abomaso: cuajar.
E já tenho escuitado cuájar, nom podo deixar de sorrir quando assi ouço. Fai-me lembrar os quásar galácticos do Carl Sagan.

Formigo

Fala Arturo de Lombera Hermida, neste trabalho completíssimo do formigo, onde di (traduzo):
Formigo:
- Sintomas: Corrosão do interior do casco da vaca ou cavalo.
-Tratamento:
-Seixo, sulfato, gás.
-Bênção. Põe-se o casco sobre um terrão e com um cuitelo vai-se perfilando, bendizendo-o caladinhamente. Nove vezes se bendize cortando no terrão e depois reza-se um ou dous Pai Nosso. O terrão deixa-se na lareira ou ao sol na janela e conforme se seca, cura o animal. Se no dia a seguir estava mal, voltava-se a bendizer, assim durante dous ou três dias.

Formigo, vem neste dicionário com amplos significados: "Tradicionalmente o formigo cúrase arrincando un terrón e introducindo o pé do animal no oco"

Do antigo, permaneceu a forma o ritual, mas se perdeu o principal, o agente curativo.
Formigo, o nome dá a clave.
Poderíamos pensar que vem da sensaçom de formigas correndo que tenhem os animais enfermos no peçunho.
Mas, imagino que é por outra cousa, o formigo cura-se com formigas, curava-se com formigas.
Si teria um ritual mágico arredor dele, como um burato, um corte na terra para chegar ao formigueiro ...
O formigo sanda-se co ácido fórmico das formigas, poderia ser machucando-as ou metendo o pé do animal num formigueiro deixando que picassem, comessem, limpassem as partes mortas, infectadas ou putrefeitas.
Hoje sabemos que o fórmico, o formol ou formaldeído ajudam a sandar esta doença.

O formigo cientificamente é conhecido por pododermatite.
Agora esta, os cientistas venhem-nos co nome de pedero, nome popular espanhol, (já tenho ouvido "pedeiro" ).
É denominado pedero como signo diferenciador, dizer-lhe a alguem que a sua vaca tem o formigo, quando já o proprietário sabe disso, nom adianta. Agora si, dizer que tem pedero, isso é saber!

Abur. E logo!

Aqui todo chega.
Ainda que eu por vezes nom creio nessa sentença.
Todo vem de fora, dizem outros
Algo vem de dentro, penso eu.

Havia um velho pastor, o tio Abur.
Dizem que era conhecido por Abur porque nunca dizia adiós.
-
Para onde vai tio Abur?
-Vou levar a fazendinha cara o monte da Meda.
-Tam longe?
-Desde ali tenho boas vistas, vejo as gaivotas cruzar a ria, e os buxatos.
-Adiós, tio Abur.
-Abur!
Aqui na Galiza, dize-se adiós por questions que som para outro conto.
O velho Abur despedia-se sempre com esta palavra. ("Porque nom crê em Dios", falavam uns para outros polo baixo), nom cria no Deus da Iglesia Católica.
Nunca ia à missa.
O velho Abur vestia sempre ao jeito antigo, levava polainas de lã, quando já ninguém as usava, nom eram polainas de lã tecida, eram de coiro coa lã cara fora.
Um feito histórico foi quando abrírom a pista, a estradinha. Ele apresentou-se co seu exército de cabras, ovelhas e cans, coa sua amiga a meiga, e outros opositores à apertura da parróquia ao mundo; bisarma em mão parou o trabalho dos empedradores legoeiros. Tivérom que vir os guardas municipais da vila, e houvo paus, a meiga caiu polo cham levantando-se-lhe as saias, e vendo-se-lhe a parrocha pelada, como era norma entre as da sua ocupaçom, e algum acabou no cagarrom (calabouço), e assi foi...

Morreu o velho Abur. Era só. Nom tinha família.
No enterro de corpo-presente, ainda nom sendo cristiam, metérom-no na igreja, o cura alçava a hóstia, um grande estronício soou na sacristia. E sentiu-se:
Huhu huhu! Morreu o velho Abur!

O tio Abur, nom era outro que o tio Augur?

Este conto vem da minha família.


Onde as aves de bom agoiro?

A ornitomância.


Empeiroar

Empeiroar, inchar.
"A vaca está empeiroada", o animal comeu muito, ou comeu algo que incha o seu bandulho, a sua pança. À vezes um prado com trevo ....
"Tem o ub're empeiroado", tem o ub're inflamado.

Empeiroar, virá de empiorar, ir a pior ?

Hai uns insectos, Carabus spp., que som tidos por culpáveis de muitos inchaços das vacas.
A vaca vai pascendo e come o escaravelho.
O escaravelho trava-lhe e a vaca empeiroa de contado.
Dizem que lhe trava na boca ou na gorja, ou mesmo na barriga dentro.
O certo é que muita gente assegura ter visto como a vaca sem querer o pascia, e depois vinha a pior.
Incham-lhe os beiços, a boca, a língua bota-a de fora, as ventas, por vezes até o curso está assi para fora encarnado e a nacência igual inchada. Pode ser que lhe trave mais abaixo, no esófago, e entom pola inflamaçom queda sem passo, a vaca nom pode arrotar, nom elimina os gases da fermentaçom da pança e empeiroa ainda muito mais, podendo chegar a morrer.

Estes escaravelhos som grandeiros, vaia nom chegam ao tamanho dum escorna-bois, hai-os como na image, mais dourados, cobriços, verde-azulados escuros, negros, negros com brilhos azuis como as penas das pegas.
Chamam-lhes gabarros, esghanos, rãs ou relas, dependendo do lugar.
E assí, ouves que as enfermidades tenhem esses nomes.
A vaca tem a rã, ou à vaca picou-lhe umha rela na língua.
O gabarro tamém é culpabilizado além de empeiroar vacas de lhes comer os cascos e fazer-lhes feridas neles. E assi umha vaca que tem o peçunho magoado, a unha com ferida, dize-se que tem o gabarro.
Era, ou é costume, entre os nenos pastores, pilharem um gabarro e cuspir-lhe. O escaravelho defende-se deitando um líquido vermelho, diziamos que sangrava, que esse sangue era a sua poçonha, o seu veneno.

Abur

Abur é voz de despedida.
É um adeus.

Um resto.
Dizem que é voz basca, de agur.
Tamém dizem que pode vir dos latins aguriu, auguriu, agoiro, augúrio.

E virá. Seguramente dum lado ou do outro.
Um resto de algo que aqui ficou.
Aqui nesta esquina atlântica parece ser que todo chega.
Todo aporta, como num recanto dum areal, entre argaços, paus, folhas, resíduos, refugalhos ...

Os restos, as ruínas, os augúrios e a coruja:
A coruja, ave de augúrio, uns dizem, a cultura poular galega, que de mau agoiro, mas eu penso doutra maneira. A coruja, dizia, conta o seguinte, coa sua voz esganada, sobre as ruínas e os restos:

"Escolhi por morada uma casa abandonada. Sou pouca cousa, nasci entre ruínas e nelas estou à vontade, mas não para drogar-me. E fui dar a centos de lugares habitados, uns estão em confusão, outros no ódio. Eis que aquele que quisesse viver na paz deve refugiar-se como o drogado, entre as ruínas. Se nelas moro tristemente é porque é ali onde estão agachados os tesouros. E este amor pelos tesouros é o que me leva às ruínas, pois os tesouros somente existem nelas. Ali oculto a toda a gente as minhas inquedanças, o meu desassossego, com a esperança de atopar um tesouro que não esteja resguardado por nenhum encantamento.
Se o meu pé o achar...
O meu ansioso coração ia ficar livre?...
Esse amor ao ouro, disse-me a poupa, que não me deve cegar. Não farei deste amor terreno uma idolatria.
Pois o ouro verdadeiro é bem outro que me iluminará quando dê saído da noite".

Deixemos a coruja, santa animália pejorada nestes séculos.
Aih Atena!, quê mal tens feito para assi te condenarem?


(O falar da curuja é refeito de "O colóquio das aves" de Farid Uddim Attar).

Empolinhar

"Estivo-che bem mal, eu crim que morria.
Agora vai comendo melhor, a ver ..., a ver se vai empolinhando".
Neste caso podia substituir-se empolinhar por: ir para riba ou ir por riba.
Empolinhar, empulinhar, empolicar, empulicar.

Empolicará?
Empolicar diz o dicionário Estraviz que vem de impollicare, im +pollicar , < polex, polegar.
Or She's okey, Mac'key.


Um conto, sobre os acenos manuais e o passo do tempo:

Lugar remoto, postguerra.
Umha velha revelha vai despedir ao seu neto que marcha para a tropa.
O autobus, o Correo assi chamado, pára.
Sobe baixa gente.
Acenam-se na despedida.

A velhota fala para a minha avoa e o meu pai, que se apearam do Correo, conhecem-se de vizinhança, vam de volta por corredoiras fundas, lamacentas e escuras para o alto e o ilhado.
- Porque a gente quando se dize abur acena coas mãos assi?- Perguntou a senhora.
- Assi como?
- Assi ao revés, como se quigessem chamar por alguém.
Ela estava a perguntar por quê acenavam na despedida como se acena na atualidade.
A forma dela para se despedir de alguém, era dum jeito que agora apenas se fai para as crianças, para os bebês:
"Abur, abur".
A
lgo assi como um "Ghau" dos índios das pradarias, mas abrindo e fechando em punho pouco apertado a mão a cada golpe da voz abur.

Lembro que lim por nom sei onde, a nom sei quem, que muitas vezes, os restos da cultura antiga fica na "cultura infantil".
Os velhos deuses passam a ser deusezinhos ou deminhos menores dos nenos.
Os ritos antigos ficam como jogos.